Antes ele admirava meu atrevimento, e qualquer decisão ousada, o fascinara e intimamente entregava seus pensamentos com ar despreocupado para não revelar-se intimidado. O que eu poderia dizer? Éramos uma mentira atraente. Às vezes me pego chorando com o travesseiro silenciando os soluços enquanto discutimos dívidas, um passado ausente um do outro, e sinto falta daquele mistério, daquele esforço forjado que nos fazia acreditar sermos corajosos, investíamos na espontaneidade, cheios de receios da melhor colocação, dois imãs querendo dar as mãos, com uma vergonha estancando o peito. Tinha meu coração na boca, e o prendia sempre que não o achara merecedor de minhas declarações, hoje é como uma obrigação para não me sentir distante, me querer distante. Sempre dou minhas palavras facilmente para não abater. Seria, pois não, uma ousadia? Uma coragem? Sim! Porque não? É preciso coragem para amortecer o que poderia destruir algo que te faz acreditar ser bom. Não poderíamos saber quando é abusivo, quando apenas o esquecimento ou uma emenda, ou um orgulho ferido te daria as mãos e o impulso para retornar a mesma mentira atraente.