Ela tentara treinar seu coração, endurecê-lo, e jogar-se ao esquecimento, tratar as coisas com menos intensidade. Estava cansada. Sim, há muito tempo sentia que a direção de tudo iria jogá-la novamente naquela vala escura. Amedrontada, percorria um longo caminho dentro de si, tentando achar um recomeço, qualquer que fosse. Desconfiada demais reagia com olhar alheio, e colocações polêmicas, apontando pra si toda frustração, a covardia estampada na face dissimulada. Desconectar-se daquele torpor parecia impossível. Quem ela poderia ser? Afinal, há muito tempo não era mais ela, não era mais ninguém, à deriva fitando um céu furioso. E sendo o fantasma que se convencia ser, travara uma grande guerra em sua cabeça. Então ela pensara nele, desejava com todo coração ser alcançada e dividida. Achara que talvez ele pudesse carregá-la um pouco, tirá-la daquele campo-minado e suavizar seu coração inquieto, queria seu céu de estrelas. Porém, sabia que toda relação humana não passara de um grande espetáculo, de um desequilíbrio constante e de medo, e a pureza que tanto procurara só acharia nos momentos em que um milagroso silêncio preenchia seu sono manso, ou aquele sonho onde uma criança correria para seus braços e amaria todos seus pedaços incondicionalmente. E se via tão egoísta, tão mesquinha e boba. Como poderia respirar se tudo a sua volta parecia está ali para esquivá-la de sua própria natureza? De seu desespero interminável. Quem são aqueles estranhos que a diziam amar tão intimamente? Quem são eles? Seria ela feita pra ser sempre devota de todos? Porque havia momentos que seu peito parecia uma bomba e dificilmente havia ar suficiente, e as pessoas pareciam folhas no outono acalmando sua passagem, de longe, muito longe, sentia-se carregá-las nos braços, aninhando folha por folha num desejo implacável de tê-los nessa distância segura. Tudo se tornara demais, sufocadamente excessivo e a bomba instalada em sua cabeça poderia ser seu significado para o amor, e queria chorar, ao menos sentir-se vítima.