Quinta-feira, Novembro 10, 2011


Poderia tê-lo agarrado as pressas, mas nunca me aventurei nem em telefonar. Poderia ter ficado quietinha no canto cama, em vez de fugir na surdina, me sentindo mulher correndo feito criança. Bem quis ter tido a coragem de não fugir do touro manso, abanando minha bandeira de glória, manchada de branco, como se em segredo dissesse: “ESTOU ME ENTREGANDO!”, em silêncio para o grande bando não ouvir. Juntado esperança naquele miragem de que poderia... enfim...

Terça-feira, Novembro 08, 2011

Antes ele admirava meu atrevimento, e qualquer decisão ousada, o fascinara e intimamente entregava seus pensamentos com ar despreocupado para não revelar-se intimidado. O que eu poderia dizer? Éramos uma mentira atraente. Às vezes me pego chorando com o travesseiro silenciando os soluços enquanto discutimos dívidas, um passado ausente um do outro, e sinto falta daquele mistério, daquele esforço forjado que nos fazia acreditar sermos corajosos, investíamos na espontaneidade, cheios de receios da melhor colocação, dois imãs querendo dar as mãos, com uma vergonha estancando o peito. Tinha meu coração na boca, e o prendia sempre que não o achara merecedor de minhas declarações, hoje é como uma obrigação para não me sentir distante, me querer distante. Sempre dou minhas palavras facilmente para não abater. Seria, pois não, uma ousadia? Uma coragem? Sim! Porque não? É preciso coragem para amortecer o que poderia destruir algo que te faz acreditar ser bom. Não poderíamos saber quando é abusivo, quando apenas o esquecimento ou uma emenda, ou um orgulho ferido te daria as mãos e o impulso para retornar a mesma mentira atraente.

Quarta-feira, Junho 08, 2011

Calou-se, finalmente. Seu coração inquietante, seus passos pesados, suas fadas entre os dentes. Mas agora acabou. Não houve rancor, não houve náusea, nem uma vontade de padecer, apenas um amor silenciado, terno. Lentamente ela o presenteou com um beijo seus lábios tremidos. Havia compaixão, uma vida entrelaça na outra, um ninho vazio a ser preenchido. Jurou que a fizera feliz e choraram em desespero. Ela sabia que estivera a esconder-se nas margens de um vale perdido, num paraíso profundo, terno, muito antes de conhecê-lo. A vida calma que nunca se imaginaria vivendo, porém estava sempre a desejando, uma promessa de conforto, quando sugere um desvio inevitável. Palavras engolidas tantas vezes, as vozes grosseiras de quem não sabe sentir, entender. Tens medo, ela também. Tanto medo e tanta saudade, vivendo mil vidas, algumas tão boas que chegaram a não agüentar, e novamente mil partidas. O universo o espera. E ela o espera desesperadamente também. As folhas caídas, a chuva que não acaba, a cama inundada, tudo lembra você, tudo é você e ela abraça. Gentilmente entra em seu sonho, e não se vê mais cega, destruindo suas camadas de disfarce.

Segunda-feira, Maio 30, 2011

Ela tentara treinar seu coração, endurecê-lo, e jogar-se ao esquecimento, tratar as coisas com menos intensidade. Estava cansada. Sim, há muito tempo sentia que a direção de tudo iria jogá-la novamente naquela vala escura. Amedrontada, percorria um longo caminho dentro de si, tentando achar um recomeço, qualquer que fosse. Desconfiada demais reagia com olhar alheio, e colocações polêmicas, apontando pra si toda frustração, a covardia estampada na face dissimulada. Desconectar-se daquele torpor parecia impossível. Quem ela poderia ser? Afinal, há muito tempo não era mais ela, não era mais ninguém, à deriva fitando um céu furioso. E sendo o fantasma que se convencia ser, travara uma grande guerra em sua cabeça. Então ela pensara nele, desejava com todo coração ser alcançada e dividida. Achara que talvez ele pudesse carregá-la um pouco, tirá-la daquele campo-minado e suavizar seu coração inquieto, queria seu céu de estrelas. Porém, sabia que toda relação humana não passara de um grande espetáculo, de um desequilíbrio constante e de medo, e a pureza que tanto procurara só acharia nos momentos em que um milagroso silêncio preenchia seu sono manso, ou aquele sonho onde uma criança correria para seus braços e amaria todos seus pedaços incondicionalmente. E se via tão egoísta, tão mesquinha e boba. Como poderia respirar se tudo a sua volta parecia está ali para esquivá-la de sua própria natureza? De seu desespero interminável. Quem são aqueles estranhos que a diziam amar tão intimamente? Quem são eles? Seria ela feita pra ser sempre devota de todos? Porque havia momentos que seu peito parecia uma bomba e dificilmente havia ar suficiente, e as pessoas pareciam folhas no outono acalmando sua passagem, de longe, muito longe, sentia-se carregá-las nos braços, aninhando folha por folha num desejo implacável de tê-los nessa distância segura. Tudo se tornara demais, sufocadamente excessivo e a bomba instalada em sua cabeça poderia ser seu significado para o amor, e queria chorar, ao menos sentir-se vítima.

Terça-feira, Abril 26, 2011

Existia amor, certamente, e por isso não havia porque nos separar pela proximidade. Pois haveríamos que arcar com as mentiras e exageros, e tínhamos medo. E ele sabia que estava condenada bem antes de conhecê-lo, pois minha velha insegurança continuara a vagar por aí, às escondidas. Quando não estou ao seu lado, estou desencantada, porém envaidecida, e ouço as batidas das mãos frenéticas me chamando. Às vezes são ruídos ao pé do ouvido enquanto durmo. Um coro de anjos de pele quente. São os meus condenados, suplicando amor feroz, silencioso. E o maldito ao lado da mesa, com seus olhos vermelhos, sua boca armada, apontando pro nada. Aí está! O que meu coração não deseja, mas meu corpo embala sem medo. São deles, meus deuses de corpo cansado, cheios de fantasias, animais famintos a espreita, especulando a melhor refeição, enquanto engana o estômago, acreditando que tudo será abundante e encantador, a espera, somando, somando. Suplicando que dure.

Quarta-feira, Março 16, 2011

Ela tem aquela fixação de olhar-se no espelho, como quem fecha os olhos para lembrar. Começo a pensar se realmente ela está enlouquecendo. Foram tantos episódios de recaídas e choros e gritos e momentos de calmaria, que nem sei mais em que situação nos encontramos. Terapia nunca funcionou, e sempre acreditei não funcionar. Montar uma barreira de amor ao seu redor nunca fez efeito, violentas palavras de rancor não a despertaram do torpor, ela sim enlouqueceu, creio eu. Será que eu também tenha enlouquecido e esquecido que ela sempre fora assim? Porque veja bem, eu era uma criança, mas agora eu verdadeiramente vejo, verdadeiramente sinto. São tantos os motivos, são tantas as acusações, que não poderia me retirar de consciência limpa e negar que minha reclusão e meu jeito não a tenham entristecido. Mas é tanta fragilidade, que poderia vê-la ver o mundo cair a seus pés e apenas sentir vontade de chorar. Talvez a medicação a tenha enfraquecido mais, a deixado nesse estado, tão absorvida. A menina do rabo de cavalo e seu top preferido enlouqueceu, eu vejo. Suas escritas são cartas de amor rancorosas, de amor maldito, dilacerado. Suas ligações são solitárias e desesperadas, por uma atenção vingativa. Ela teme a morte, mas brinca de chantagear usando-a. Talvez ela tenha definitivamente enlouquecido ou talvez ela tenha se esquecido, mas ela continua a olhar-se no espelho.

Sábado, Fevereiro 12, 2011

Eles sabem como dói, e querem machucar-me. Quatro mãos em meu corpo ébrio, amáveis e assassinos, eles cuidam de mim. Beijos suaves, ferozes, quatro mãos em meu corpo despreocupado. Sombras da noite, eles suaram e cuspiram em minha boca. Assassinos, corruptos, crápulas, eles cuidam de mim. Desapegados, me aninhei em um abraço violento. Bubaa, mais um salvador que pedi por sexo e faz amor. Meu Bubaa ferido, meu Bubaa bondoso. Fui tua vestimenta da noite, graciosa noite que me salvaste. Com o silêncio da madrugada a cidade dorme, nós nos rasgamos de vontade. Você despido na penumbra delirante, me carrega e me retoca pura, menina. Beija como beijos de despedida, como imagino ser um beijo de amor. Com uma multidão de sombras o deixo, e só mais uma vez volto a olhar-te na sombra que você também se tornou. Bubaa da minha casa nunca erguida, dos meus filhos não nascidos, meu Bubaa de amor.